São Miguel de Acha e a sua História

A obra abre com um capítulo especialmente rico e instigante: O nascer de Acha, uma perspetiva histórica – poderes, religiões e a lenda. Aqui, Manuel Ruivo convida-nos a recuar até aos tempos da romanização, ao mundo visigótico, às ocupações árabes, às incertezas cronológicas e às tradições orais que persistem. Não o faz de forma dogmática ou fechada — muito pelo contrário. A investigação histórica cruza-se com a humildade de quem sabe que muitas perguntas continuam sem resposta. E é precisamente nesse espaço — entre o facto e o mito, entre o documento e a memória — que o autor ergue a sua narrativa.

 Principais pontos:

  1. Origem e História Antiga:
    • São Miguel de Acha tem raízes que remontam à época romana, com influências visigóticas e árabes. A localidade foi moldada por práticas agrícolas e religiosas, com destaque para sepulturas escavadas na rocha e a lenda mourisca que reforça a identidade local. ​
  2. Reconquista e Idade Média:
    • Após a reconquista cristã, a região foi integrada nas terras administradas pela Ordem do Templo. ​ A localidade prosperou com o repovoamento e a organização territorial, destacando-se a importância das feiras e da Igreja de São Miguel. ​
  3. Séculos XVII e XVIII:
    • São Miguel de Acha foi elevada a vila em 1752, consolidando sua relevância administrativa e cultural. Durante a Guerra da Restauração, foi construído um reduto militar para defesa contra incursões espanholas. ​
  4. Século XIX:
    • A vila enfrentou desafios como as Invasões Francesas, as Guerras Liberais, e a reorganização administrativa de 1836, que resultou na perda do estatuto de vila. A economia local era marcada pela agricultura, exploração mineira, e comércio. ​
  5. Século XX:
    • A localidade manteve sua identidade rural, com destaque para tradições culturais e religiosas. ​ A emigração e as reformas republicanas trouxeram mudanças sociais e económicas. ​
  6. Família Vaz de Carvalho:
    • A família desempenhou um papel importante na história local, com membros influentes na política e cultura, como Maria Amália Vaz de Carvalho, escritora e feminista. ​

Conclusão:

O livro é uma homenagem à história e identidade de São Miguel de Acha, destacando sua resiliência e contribuição para a região. ​ É uma obra rica em detalhes históricos, culturais e sociais, que preserva a memória coletiva da localidade. ​

A economia de São Miguel de Acha tem sofrido transformações significativas ao longo do tempo, adaptando-se aos contextos históricos e sociais de cada época:

  1. Economia Antiga e Medieval:
    • Agricultura e subsistência: Desde os seus primórdios, a economia baseou-se na agricultura de subsistência, com cultivos como cereais, azeite e vinho. A população dependia também da criação de gado e de pequenas explorações agrícolas.
    • Feiras e comércio: Durante a Idade Média, as feiras locais desempenharam um papel importante na dinamização económica, fomentando o intercâmbio de bens e a integração regional.
  1. Séculos XVII e XVIII:
    • Elevação a vila: Em 1752, São Miguel de Acha foi elevada a vila, o que impulsionou a sua economia ao consolidar a autonomia administrativa e fortalecer o seu papel como centro regional.
    • Reduto militar: A construção de um reduto militar em 1663, durante a Guerra da Restauração, também teve impacto económico, ao exigir recursos locais para a sua manutenção.
  1. Século XIX:
    • Mineração: A exploração de minas de chumbo na região, documentada em 1857, tornou-se uma atividade económica relevante. No entanto, os altos custos de transporte e a falta de infraestruturas limitaram a sua rentabilidade.
    • Agricultura e desigualdade: A economia continuava a ser predominantemente agrícola, com baixos salários e grandes desigualdades sociais. Os terrenos férteis eram valorizados, mas a pobreza e a precariedade laboral eram comuns.
    • Impacto das reformas: A reorganização administrativa de 1836, que eliminou o estatuto de vila, afetou negativamente a economia local, ao centralizar a administração em Idanha-a-Nova.
  1. Século XX:
    • Emigração: A emigração para o Brasil e para a Europa marcou a economia local, com as remessas a ajudarem as famílias e a financiarem pequenas melhorias agrícolas.
    • Diversificação: Surgiram atividades como a produção de cerâmica, de lacticínios e a exploração de volfrâmio, embora a agricultura continuasse a ser o pilar da economia.
    • Modernização: A partir das décadas de 1950 e 1960, começaram a notar-se melhorias nas infraestruturas, como novas estradas, e um lento avanço na mecanização agrícola.

Conclusão:
A economia de São Miguel de Acha evoluiu de uma base agrícola e de subsistência para uma diversificação limitada com a mineração e pequenas indústrias. No entanto, o seu desenvolvimento tem sido marcado por desafios como a pobreza, a emigração e a escassa intervenção pública, refletindo as dificuldades típicas das comunidades rurais em Portugal.

A mineração teve um impacto significativo na economia de São Miguel de Acha, embora com limitações que condicionaram seu desenvolvimento:

  1. Início da atividade mineira: ​
  • A mineração em São Miguel de Acha é mencionada pela primeira vez nos Interrogatórios Paroquiais de 1758, onde se destaca a extração de minerais como ouro, prata, cobre, estanho e chumbo. No entanto, não se especifica a localização exata nem a dimensão da exploração. ​
  1. Desenvolvimento no século XIX: ​
  • Em 1857, o geólogo Carlos Ribeiro realizou um estudo detalhado sobre as minas de chumbo da região. ​ Ele identificou numerosos afloramentos de filões em áreas como Pedro Afonso, Chão do Vigário e Vale Bom.
  • A mineração tornou-se uma atividade econômica relevante, mas enfrentou desafios logísticos, como os altos custos de transporte do minério para Vila Velha de Ródão e Lisboa, o que limitou sua rentabilidade. ​
  1. Impacto econômico e social: ​
  • Baixos salários: Os trabalhadores das minas recebiam salários muito baixos (entre 200 e 240 réis por jornada para os homens, e apenas 80 réis para mulheres e crianças), refletindo uma marcada desigualdade social. ​
  • Pobreza estrutural: Embora a mineração gerasse emprego, não melhorou significativamente as condições de vida da população local, que continuava dependendo da agricultura de subsistência. ​
  1. Século XX: ​
  • Em 1943, foram concedidas licenças para a exploração de minas de chumbo, zinco, volfrâmio e estanho em áreas como Cabeço onde Mataram os Homens e Barroca do Marmeleiro. ​ Essas atividades continuaram sendo importantes, mas não conseguiram transformar a economia local de forma substancial.

Conclusão: ​

A mineração em São Miguel de Acha contribuiu para a economia local ao gerar emprego e atividade econômica, mas seu impacto foi limitado pela precariedade laboral, os altos custos de transporte e a falta de investimento em infraestrutura. ​ Embora tenha sido uma fonte de renda, não conseguiu impulsionar um desenvolvimento sustentável nem melhorar significativamente as condições de vida da população. ​

Os principais eventos históricos de São Miguel de Acha, conforme descrito no documento, incluem:

  1. Origem e influência romana: ​
    • A região foi ocupada pelos romanos, com vestígios como a Villa Romana dos Barros (séculos III-IV), que indicam uma ocupação inicial ligada à agricultura e à exploração de recursos. ​
  1. Período visigótico e árabe: ​
    • Após a queda do Império Romano, os visigodos consolidaram seu domínio na região. ​ Mais tarde, os árabes ocuparam a área, embora São Miguel de Acha tenha mantido uma população cristã residual. ​
  1. Reconquista cristã e influência templária: ​
    • Durante a Reconquista, a região foi integrada às terras administradas pela Ordem do Templo, que desempenhou um papel importante na organização territorial e religiosa. ​
  1. Elevação a vila (1752):
    • São Miguel de Acha foi elevada a vila por D. José I, como reconhecimento pelos serviços prestados pela família Vaz de Carvalho. ​ Este evento marcou um período de crescimento e maior autonomia administrativa.
  1. Extinção da vila (1836): ​
    • Com a reorganização administrativa promovida por Passos Manuel, São Miguel de Acha perdeu o estatuto de vila e foi integrada ao concelho de Idanha-a-Nova, gerando descontentamento local. ​
  1. Exploração mineira (séculos XVIII-XIX): ​
    • A mineração de chumbo e outros minerais foi uma atividade econômica relevante, especialmente no século XIX, embora enfrentasse desafios logísticos e sociais. ​
  1. Impacto das Invasões Francesas (1810-1811): ​
    • Durante as invasões, a vila sofreu perdas significativas, como a requisição de bois e outros recursos pelos exércitos, afetando a economia local. ​
  1. Lutas entre absolutistas e liberais (século XIX): ​
    • São Miguel de Acha participou ativamente das disputas políticas, com manifestações de apoio ao constitucionalismo e petições para recuperar sua autonomia administrativa. ​
  1. Implantação da República (1910): ​
    • A transição para a República trouxe mudanças administrativas e sociais, como a expansão da educação laica e reformas na organização local.
  1. Legado cultural da família Vaz de Carvalho: ​
    • A família Vaz de Carvalho desempenhou um papel importante na história local, com destaque para Maria Amália Vaz de Carvalho, escritora e feminista pioneira. ​

Esses eventos refletem a rica história de São Miguel de Acha, marcada por transformações políticas, sociais e econômicas que moldaram sua identidade ao longo dos séculos. ​

Bibliografia relevante:

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No Arquivo Distrital de Castelo Branco, datado de 1827, encontra-se depositado o Livro de Registos do Imposto de Selo do Fundo da Câmara Municipal de São Miguel d´Acha.

O livro tem 138 páginas, imprimiram-se 500 exemplares.