Património judaico

Adufe
Setembro 27, 2021

Perguntar quando chegaram os judeus ao território português é uma questão sem resposta adequada. Sabemos apenas que chegaram à Península Ibérica ou sefarad numa das suas múltiplas diásporas. Encontram-se marcas dos judeus peninsulares, também designados como sefarditas, desde o século II-III.

Pertencem a D. Dinis as mais antigas minutas de cartas de confirmação de privilégios a comunas de judeus do reino. O aumento populacional na Beira interior, tal como no resto do reino, adveio da imigração de judeus castelhanos e de outros reinos peninsulares, como Navarra e Aragão, nos finais dos séculos XIV e XV, justificada pelo Édito de Expulsão de Castela em 1492, mas também por um movimento de tensão anti-judaica. A população judaica fixava-se preferencialmente junto à raia com Castela, uma vez que isso facilitava as relações comerciais e familiares clandestinas, podendo continuar a manter contacto com a vida que deixavam para trás.

Em finais do século XV a maior parte dos concelhos tinha a sua comuna ou a sua judiaria e nela a sinagoga, que num modelo mais simples podia mesmo funcionar numa casa de habitação.

Depois de promulgado o édito de expulsão por D. Manuel, pressionado pelos Reis Católicos, e tendo consciência que não podia perder a força intelectual e económica dos judeus, desenvolveu uma estratégica da conversão e baptismo forçado. Ainda assim, a maior parte dos cristãos-novos mantiveram-se no reino protegidos pelo rei, que proibiu as inquirições durante 20 anos para que se pudessem afeiçoar às novas crenças. Nesse período adquiriram mobilidade, e deslocaram-se para lugares onde o seu passado judeu não era conhecido, misturando-se com os cristãos-velhos, alguns ingressaram na nobreza, nas ordens militares e nas universidades.

Mesmo após a conversão forçada os judeus continuaram a manter uma feroz endogamia, casando entre si, com outros cristãos-novos da mesma comunidade ou de comunidades vizinhas.

Os processos da Inquisição mostraram-nos uma comunidade próspera, onde o cristianismo escondia um judaísmo clandestino no interior das casas. Este relacionamento fechado, quer familiar, quer económico, permitiu-lhes viver numa atitude híbrida: exteriormente cristãos, baptizados, crismados e frequentadores da igreja e dos sacramentos, membros de confrarias, e, ao mes¬mo tempo, continuadores da tradição religiosa judaica no seio das suas famílias e casas.

As marcas cruciformes, concavidades nas ombreiras das portas e os símbolos mágico-religiosos esculpidos nas casas constituem manifestações simbólicas exteriores da conversão ao cristianismo e de uma vida dupla. As concavidades destinavam-se a conter no seu interior um pequeno rolo de papel ou pergaminho com orações de culto judaico e as marcas funcionavam como símbolo religioso ou amuleto, procurando protecção e sorte para a casa e seus habitantes, dando cumprimento às seguintes palavras da Bíblia de Jerusalém (Dt 6,4-9) “ Ouve ó Israel: Iahweh nosso Deus é único Iahweh! Portanto amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração. Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu as atarás à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre os teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas”.

No início do século XVII, regista-se um decréscimo populacional, devido a uma conjuntura de fome, epidemias, recrutamento forçado, viagens para o novo mundo, que esvaziou Portugal. A par disso, muitas localidades perderam pessoas que fugiram à Inquisição. No território que constitui hoje o concelho de Idanha-a-Nova, em 1631, foram arrolados para pagamento do juro do Perdão Geral pelo menos 75 cristãos-novos.

As tensões e ódios criaram agitação e as denúncias atiraram famílias inteiras para o cárcere e para a miséria. Muitos tentaram refazer a vida fora do país. A título de exemplo, destaco Ribeiro Sanches, médico e grande intelectual, nascido em Penamacor, filho de Simão Nunes “Flamengo”, de Penamacor, e de Ana Nunes Ribeiro, de Idanha-a-Nova, abastados comerciantes cristãos-novos da Beira Baixa. Foi denunciado por um primo à Inquisição pela prática de judaísmo, fugiu e exilou-se. Estudou e exerceu medicina em diversos países da Europa. Foi médico no Corpo Imperial dos Cadetes de São Petersburgo e da czarina da Rússia, tendo terminado os seus dias em Paris dedicando-se à ciência e ao pensamento. É um dos maiores vultos da ciência e cultura europeias do século XVIII.

As investigações levadas a cabo corroboram a presença histórica das comunidades judaicas no território e S. Miguel de Acha não é excepção. Destas comunidades permanecem inúmeros vestígios, seja pela toponímia, pelos cruciformes e símbolos mágico-religiosos, ou mesmo, pela existência de casas com interiores comunicantes. Marcas ainda perceptíveis, que merecem ser estudadas, salvaguardadas e valorizadas.

Adalgisa Patrícia Mendes Leitão Dias, arqueóloga